''Com presença do diretor e elenco, espetáculo Nós, os Justos'' realizam coletiva de imprensa no Teatro Itália em São Paulo''
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O novo texto do dramaturgo e diretor Kiko Rieser intitulado ''NÓS, OS JUSTOS'', retrata com muita maestria e riqueza de detalhes a cultura do cancelamento, transformando rumores de uma grande empresa renomada em uma parábola sobre o justiçamento e a cultura do cancelamento na contemporaneidade. O espetáculo tem estreia prevista para 06 de Março no Teatro Itália em São Paulo.

Elenco reunido na coletiva de imprensa do espetáculo Nós, os Justos- Foto: Renata Porto
A equipe de direção juntamente com a Companhia Colateral formado pelos atores Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú, se reuniram na última quarta-feira (25/02) em uma coletiva de imprensa com jornalistas e convidados para apresentar as primeiras cenas do espetáculo ''Nós, os Justos'', compartilhar suas experiências , desafios e emoções diante da criação e idealização de um enredo perturbador, dinâmico e contemporâneo, colocando o espectador diante de uma estrutura que se assemelha a um tribunal com presença de juiz, a acusação, a defesa e a testemunha, prendendo a atenção pela tensão constante.
Escrita originalmente em 2018, quando a "cultura do cancelamento" começava a se desenhar, a peça atravessou quase uma década sem modificações substanciais — exceto pela incorporação do conceito de compliance, hoje central no mundo corporativo. O texto reflete um tempo em que o trânsito instantâneo de informações redesenhou o impacto de casos de justiçamento, ecoando episódios emblemáticos da vida real onde o desejo de vingança eliminou o direito à defesa. A encenação reforça essa temática ao colocar o espectador diante de uma estrutura que mimetiza um julgamento, prendendo a atenção pela tensão constante.
Ambientada no meio corporativo, o espetáculo transita com segurança na linha tenuê entre a realidade e rumores sobre a conduta de um determinado funcionário. Os rumores se espalham e criam um veredíto sobre essa conduta do funcionário e fazem com que seus colegas exerçam forte pressão por sua demissão. É instaurada uma sindicância, onde nada do que é revelado é absoluto, tornando-se impossível tomar partido de qualquer lado sem possibilidade de erro. Todos os personagens são tragados por uma bola de neve que trará consequências imprevisíveis.
À medida que a investigação avança, torna-se cada vez mais difícil separar fatos de narrativas, convicções de conveniências. Pequenos detalhes ganham peso desproporcional, informações do passado ressurgem e relações pessoais interferem nas decisões. Todos acabam envolvidos em um processo que foge ao controle, no qual são tragados por uma bola de neve de consequências imprevisíveis.
O espetáculo traz uma importante reflexão sobre a cultura do cancelamento muito evidente nos tempos atuais com a chegada das conexões virtuais, principalmente se tratando de falas ou atitudes de cunho duvidosos ou tirada de contexto de personalidades famosas e relevantes, revelando um cenário preocupante de linchamentos virtuais, injustiças e danos irreversíveis para aqueles que são alvo desse fenômeno. Essa cultura tem se espalhado pelas redes sociais, e suas dinâmicas provocam consequências significativas para a sociedade.

Diretor Kiko Rieser e elenco na coletiva de imprensa do espetáculo Nós, os Justos- Foto: Renata Porto
O diretor do espetáculo Kiko Rieser fez questão de pontuar sobre o enredo da peça, que além do espetáculo trazer ao expectador uma possibilidade de reflexão e inquietação sobre essa temática, sobre injustiça, sobre o tribunal da internet , sem provas conclusivas , principalmente sem apuração e veemência dos fatos . Para o diretor o espetáculo propõe ao público ''a possibilidade do público em sentir empatia, que possa se criar esse exercício de empatia sobre todos os personagens, que possa se entender a verdade de cada um deles, as motivações por traz do argumento de cada um deles, justamente pela possibilidade desses funcionários que são acusados estejam de fato falando a verdade'', se criando dessa forma uma resolução harmônica e construtiva de gerenciamento de conflitos.
De forma muito complexa e decisiva, o espetáculo evidencia como, nas guerras de narrativas da contemporaneidade, importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com uma versão conveniente. Trata-se de um retrato de uma sociedade que perdeu a capacidade de escuta: “A peça não entrega respostas; apenas as oferece dialeticamente, convocando à escuta antes de qualquer tomada de posição. Vivemos um tempo de extremos, em que o ato de julgar segundo princípios próprios tornou-se naturalizado”, conclui Kiko.
Um ponto importante da peça é a presença invisível de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados ironicamente de “a manada”, eles representam a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.
“A gravidade de temas como perseguição e abuso de poder exige equilíbrio e menos paixão”, pontua Rieser. “Quando a identificação imediata com uma história passa a importar mais do que o compromisso com a realidade, o risco de injustiça se torna enorme.” Ao evidenciar esse comportamento coletivo, o espetáculo revela como o desejo de “fazer justiça” pode facilmente se transformar em violência simbólica e exclusão. O diretor espera, por fim, que o público não reproduza esse comportamento ao sair do teatro: “O nosso intuito é fazer as pessoas saírem com a dúvida plantada na cabeça. Espero que sentem à mesa para comer sua pizza e continuem refletindo. Que as pessoas ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento que prejudicam todos os envolvidos.”

Elenco e equipe reunido na coletiva de imprensa do espetáculo Nós, os Justos- Foto: Renata Porto
Sobre a direção: matar o dramaturgo
Dirigir o próprio texto exige um exercício de desapego. Rieser afirma que, na sala de ensaio, "mata o dramaturgo" em prol da potência cênica. Um conceito fundamental na encenação dos Justos é que todos os atores, depois que entram em cena, não saem mais e ficam coexistindo em planos paralelos, mesmo que não estejam na ação dramatúrgica da cena. “Eu tento sempre distanciar muito a figura do diretor da figura do dramaturgo. O dramaturgo tem um olhar de encenador, mas quando eu vou para a sala de ensaio eu 'mato' o dramaturgo. Vira e mexe eu corto coisas, modifico coisas bruscamente e brinco para não contarem para o autor. Se eu tiver que realocar uma cena, vou ter que reescrever; a obra tem que estar a serviço da cena”, revela.



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